População reconhece a importância da votação, mas privilegia alguns cargos em detrimento de outros
Em 4 de outubro milhões de pessoas vão às urnas mais uma vez decidir quem serão seus representantes pelos próximos quatro anos no Congresso Nacional e no Senado Federal. Com a votação se aproximando, as dúvidas sobre o quão preparada está a população para tomar essa decisão, retornam.
Em todo período eleitoral, retorna ao palco o debate sobre o brasileiro só comparecer ao pleito em razão da obrigatoriedade do voto retorna ao palco. O senso comum parece apontar que as pessoas não sairiam de suas casas em um domingo para escolher candidatos que muito pouco parecem refletir seus votantes, porém a realidade se mostra diferente.
Em pesquisa divulgada pelo Datafolha em 23 de agosto, 56% dos eleitores disseram que compareceriam às urnas mesmo que o voto não fosse obrigatório, este número sobe para 69% entre os mais instruídos. Entre os eleitores do presidente Lula e do senador Flavio Bolsonaro, favoritos na corrida presidencial, a média fica em 63% de votantes. Embora a porcentagem daqueles que não participariam do processo eleitoral ainda seja elevado, 43% é inegável que uma parcela significativa do povo está interessada no processo eleitoral. A pergunta “em quem você vai votar?” já é repetida com frequência em ambientes de trabalho, estudo, no transporte público e no almoço de domingo, com cada nome citado colocado a julgamento por colegas, amigos e familiares.
Contudo o alto interesse nas eleições não impede alguns dos velhos problemas que acompanham o processo, entre eles, a chamada “memória curta” do eleitorado brasileiro. Em julho deste ano uma outra pesquisa apontou um dado alarmante: 75% dos eleitores não sabiam citar o nome de um senador e 67% não lembravam em quem haviam votado para deputado federal e/ou estadual.

A aparente contradição entre o engajamento para as eleições de 2026 e a incapacidade de citar qualquer integrante do Poder Legislativo mostra que não é com todo o processo eleitoral que o brasileiro se dispõe a contribuir e sim com o processo que mais fomenta a construção de narrativas. A corrida presidencial.
Culto a Imagem e guerra de narrativas impulsionam o interesse do eleitorado
Em entrevista concedida para a revista Migalhas, em 2022, o professor e pós-doutor em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marcelo Schenk Duque, já ressaltava a falta de interesse da população para com os cargos legislativos enquanto os holofotes se mantêm sempre estáveis sobre o presidente. “Nós vivemos em uma sociedade que não percebe a importância que os congressistas detêm para o desenvolvimento nacional.” Explica Duque. E continua “Falta ao povo a noção de que grande parte das reformas que necessitamos, com urgência, são medidas que dependem da vontade dos deputados e senadores.”
O professor aponta ainda que o sistema presidencialista no Brasil favorece uma ideia de que o candidato eleito ao Planalto possui “poderes quase mágicos”.
Enquanto votar para os candidatos ao Congresso e ao Senado é visto como “uma obrigação secundária e burocrática” a disputa presidencial se tornou uma guerra de narrativas, muitas vezes sem lastro com a realidade. Nas últimas eleições, projetos para saúde, segurança, cultura e educação foram substituídos nos planos de governo por pautas morais. O projeto de nação parece ter dado lugar ao ego dos candidatos de diferentes espectros políticos e o eleitor passou a se comportar como torcedor de futebol.
Para João Mota, assessor de imprensa focado em trabalhos políticos “as pessoas não entendem como a políticas de fato funcionam, elas acreditam que é o prefeito, o governador e o presidente que resolvem os problemas e não param para pensar no que um deputado ou um senador faz de fato.” ele complementa “A polarização política também piora a visão do legislativo, as pessoas ficam focadas na disputa presidencial e esquecem de procurar sobre o que o Congresso faz”.





